sábado, 24 de outubro de 2009

Quando o remédio é remédio nenhum

Porque é que o efeito placebo é uma ferramenta poderosa no tratamento das doenças? Vamos ficar a saber ...

Porque é que o efeito placebo é uma ferramenta poderosa no tratamento das doenças? Vamos ficar a saber neste artigo.Um rapazinho tropeça, esfola o joelho e choraminga. A mãe vem, pega-lhe ao colo e acalma-o; depressa o choro pára e ele desata a correr, sem se lembrar da dor. É o efeito placebo na sua forma mais simples, demonstrando o poder de uma palavra reconfortante e a sensação de estar seguro e ter quem cuide de nós. É a forma de cura mais antiga, e o seu efeito nos adultos pode ser enorme: em experiências feitas com novos medicamentos, cerca de 35 a 75% dos doentes sentem-se melhores ao tomar uma pílula inofensiva. Numa série de testes, metade daqueles a quem foi dado um placebo para a colite disseram que se tinham sentido melhor e que os seus intestinos haviam começado a funcionar. Até a cirurgia parece ter um importante elemento de placebo: as pessoas a quem os médicos apenas «abriram e fecharam» melhoram da mesma forma que as que são operadas de facto. A ciência considera o efeito placebo um tanto embaraçoso. Muitos médicos não conotam as melhoras conseguidas por meio de tratamentos complementares (medicina natural), como a acupunctura e a homeopatia, simplesmente devido ao efeito placebo e a certas formas pouco «realistas». A definição de um tratamento que valha a pena considerar é quando este em testes clínicos é mais eficaz do que o placebo. Mas a assunção confortável de que o efeito placebo é um truque, ou uma ilusão, que tem de ser ultrapassado para se verificar o que funciona «realmente» está a ser posta em causa por investigações recentes. Alguns cientistas sugerem que, em vez de tentar banir os placebos, a medicina deveria aproveitá-los e aprender a usá-los de maneira mais eficaz. Ressonâncias magnéticas provaram que os placebos tinham um efeito real no cérebro, tal como os medicamentos. Uma investigação realizada no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, demonstrou recentemente que uma região específica do cérebro responde a um placebo, libertando analgésicos como a morfina. A neurologista Helen Mayberg descobriu que tanto um antidepressivo como um placebo aumentam a actividade no córtex frontal – a parte do cérebro que nos faz pensar e planear – e reduzem a actividade em áreas do cérebro ligadas às emoções. Mas os placebos não conseguem apenas interagir com as alterações do cérebro que os medicamentos provocam. Interagem também com os medicamentos de formas complicadas. Numa experiência clínica onde um grupo de voluntários toma um medicamento e outro grupo toma uma pílula inerte os voluntários podem conseguir saber se estão a tomar o medicamento por causa dos efeitos secundários, como boca seca, náuseas, etc. Se tiverem algum destes sintomas, podem desconfiar de que são eles que estão a tomar a droga. Tentar adivinhar às cegas tem dois efeitos importantes. Primeiro, desde que pense que está a tomar o medicamento, o placebo faz efeito – ainda que esteja mesmo, e portanto a dar uma ajuda. Assim, a ténue fronteira entre a resposta a um placebo e a um não-placebo desaparece. Segundo, porque os efeitos secundários dão-lhe uma pista: os medicamentos com mais efeitos secundários podem muito bem ser considerados mais eficazes porque despoletam uma maior resposta ao placebo. De facto, em testes comparativos entre medicamentos antidepressivos e um placebo «activo» – um que produza efeitos secundários similares aos de um medicamento – os medicamentos têm uma actuação mais forte e melhor. O papel representado por essa expectativa foi ainda mais pronunciadamente ilustrado pelo Dr. Fabrizio Benedetti, da Universidade de Turim. Uma experiência dirigida por ele descobriu que um analgésico fazia mais efeito do que um placebo (não-activo) num teste aleatório normal. Mas quando o deu a voluntários com dores que não sabiam o que estavam a tomar, nenhum deles sentiu melhoras. Por outras palavras, esperar que um medicamento convencional faça efeito é uma das razões por que resulta. O mesmo aconteceu quando ele aplicou um «tratamento disfarçado» de Valium aos doentes que sofriam de ansiedade após uma operação. Se não soubessem o que estavam a tomar, não fazia efeito. Assim, uma vez que a linha entre um químico apropriado e um placebo já está confusa, porque não aproveitar a situação e explorar o efeito placebo? De facto, os médicos já os usam largamente. Mais de metade dos médicos americanos inquiridos no Outono passado admitiram que receitam regularmente placebos como tratamento; os analgésicos e as vitaminas são os mais comuns. Também referiram que raramente dizem aos doentes o que estão a fazer. Os placebos podem ter um grande raio de efeitos notáveis, mas não são uma panaceia. Não há grande efeito de um placebo no cancro, em infecções bacteriológicas ou na osteoporose. Mas fazem efeito em sintomas como a depressão, a dor, dor de cabeça ou na recuperação de uma operação onde a resposta ao tratamento depende dos sintomas subjectivos do doente. «O que precisamos é de investigação para descobrir como maximizar o efeito placebo», diz o Prof. Ted Kaptchuck, da Escola Médica da Universidade de Harvard. Ele descobriu que, fazendo aos doentes uma acupunctura falsa para a dor, tem um efeito 10% mais elevado do que um comprimido placebo. Por outras palavras, tornar o seu tratamento simulado mais elaborado pode torná-lo mais eficaz. Benedetti chegou à mesma conclusão quando estava a tratar doentes com a síndroma do colo irritável: a um grupo foi feita acupunctura a fingir; ao outro, além da acupunctura a fingir, foi-lhe dada muita atenção; um terceiro grupo foi deixado em fila de espera. Os dois grupos que foram medicados passaram muito melhor, mas o que teve a atenção redobrada reagiu tão bem como um quarto grupo ao qual foi dado um medicamento que provou ser positivo num teste de placebo. Assim, se um placebo elaborado faz mais efeito que um medicamento, deverá este ser licenciado? Outro método de testar placebos é começar por dar ao doente um químico eficaz durante um certo tempo e substituí-lo secretamente por um placebo. Resulta muito mais do que dar apenas um placebo. Benedetti usou esta técnica em doentes com Parkinson a quem tinha sido aplicado um medicamento directamente no cérebro para ajudar a diminuir os tremores. Depois de ter ministrado esse medicamento umas quantas vezes, a substituição por uma solução de sal também resultou. Não é natural que os médicos comecem a distribuir placebos superpesados nos tempos mais próximos, mas quem diria que o mecanismo por detrás de um simples abraço poderia ser tão complicado?

sábado, 17 de outubro de 2009

Dívidas e Novos Pobres

Homens, mulheres, solteiros ou casados, um novo filme retrata o seu pesadelo: o endividamento ...

Homens, mulheres, solteiros ou casados, m novo filme retrata o seu pesadelo: o endividamento, a vida arruinada. É um novo drama, o dos novos pobres.
E agora, onde é que vou buscar o dinheiro?
Um Casal: “Começámos com um crédito, um terceiro, um quarto. No meio havia uns para pagar os outros. Chegámos a ter 12 créditos. O meu marido foi-se muito abaixo”. “Agradeço-lhe a ela ter-me dado força. Pela parte que me toca, já tinha feito uma asneira…”. Uma mulher descarrega mobílias: “Tentei segurar as pontas, empenhar o ouro, pedir dinheiro aqui, pedir dinheiro acolá. Acabei por desistir. Mas ali era a casa dos meus sonhos”. Uma família: “O mês de Outubro tem mais um dia e tem mais dias úteis… faz toda a diferença. Quantos dias tem um mês? Há meses, para mim, que têm 40 dias”. São homens e mulheres, sozinhos, separados, casados, famílias inteiras, de todas as idades. São pessoas com quem nos cruzamos todos os dias, no trabalho, nos serviços, no metro. Vivem o pesadelo do sobreendividamento. “Muitos Dias Tem o Mês”, o filme de Margarida Leitão, nas salas em Setembro, retrata-as. É um documento que mostra uma nova forma de pobreza. “É uma pobreza que não é visível, nem facilmente identificável. São pessoas integradas na sociedade. Apesar de a maioria auferir de um salário ao fim do mês, o dinheiro desaparece em pagamentos de dívidas de crédito e com as penhoras a que são sujeitos. No silêncio, fazem uma ginástica difícil com os números, para conseguir manter a sua subsistência básica: casa e comida. A maior parte dos sobreendividados que encontrei trabalham na função pública. A explicação que deduzi é que têm crédito aprovado com maior facilidade. Oferecem aos bancos e instituições financeiras uma garantia única: em caso de não cumprimento, é possível penhorar o salário”. O filme acompanha um lote de “personagens”, as suas vivências, a sua luta, o seu desespero, a sua resistência. Assiste a um leilão de imóveis que deixaram de ser pagos. Vai a uma casa encarregue de cobranças difíceis – “Ele tem alguma coisa que possa ser penhorável?” Ouve assistentes da DECO. Regista o alívio do casal que não tem cartas no correio – “Ainda bem!”. Gente que mal consegue abrir a boca. “As entidades telefonavam. O meu marido nunca falou ao telefone. Os nervos eram tantos que não saía nada”. Os relatos que vinham dos bancos: “Lamento muito, mas não quero saber”. Relatos dos senhores da Cofidis que foram lá a casa. Mulheres que ainda lavam umas escadas na hora do almoço. “Muitos Dias Tem o Mês” fala de gente que conhecemos, e cuja realidade desconhecemos. “Perder o controlo é realmente fácil. Basta acontecer algo de que não se está à espera. Desemprego, divórcio e doença compõem os 3 D´s mais responsáveis pelo sobreendividamento. A partir do momento em que se perde o controlo, a pequena prestação que ficou por pagar num mês transforma-se numa bola de neve, com os juros a crescerem a níveis incomportáveis. As pessoas, de início, não se apercebem da gravidade e das implicações que umas prestações em atraso trazem. Existem lacunas na educação financeira. Na maioria dos casos, acabam por contrair mais créditos para pagar o inicial em dívida, desencadeando uma espiral da qual é difícil sair. Diariamente, debatem-se com decisões complexas. Se pagam a dívida do cartão de crédito ou se tiram os filhos do colégio, se pagam a prestação da casa ou se compram comida. Este problema atinge estatutos sociais muito diferenciados. De licenciados a pessoas com a 4ª classe, de bancários a seguranças, homens e mulheres”. Os relatos no filme de Margarida Leitão são dramáticos, pungentes. Como o da mulher cuja filha ficou invisual e que se viu, de repente, desempregada e com 400 euros de renda para pagar. Pelo meio, quando ainda tinha um emprego, aderiu a um cartão, não leu as letras pequeninas, sucumbiu à pressão. “O senhor parou em cada secção do meu emprego, fez questão de preencher o formulário. É claro que não fui obrigada a ficar com o cartão, mas que houve muita pressão, houve. Usei o cartão. A loucura de juros que punham quando não pagávamos um mês: era a triplicar!” Quando se viu desempregada, deprimiu. “Como é que eu faço? Onde é que vou buscar o dinheiro? De Junho para Julho, emagreci 18 quilos”. A sua situação, subitamente, parecia-lhe a dos animais que vê nos documentários de vida selvagem: “Quando a presa está ferida, quando está a precisar de ajuda, é quando os lobos atacam mais depressa. Lobos, leões, tudo e mais alguma coisa”. Margarida Leitão observou que “a depressão é uma consequência natural desta realidade. Nos jornais e televisão acompanhamos o aumento de consumo de anti-depressivos; penso que em alguns dos casos a questão do endividamento estará presente. A pressão e a perseguição são tais que as pessoas quebram. Existem pessoas que se isolam em casa, passando os dias à base de anti-depressivos, desligando os telemóveis para não terem telefonemas indesejados. Mas no filme, mais do que procurar formas de desistência, andava à procura de formas de resistência. Como se resiste aos telefonemas, à falta de dinheiro, às penhoras dos bens e salários?” Bela trabalha nos jardins da Câmara, ajeita as plantas, mexe na terra. Mostra umas folhas que escreveu. “Era um desabafo que eu fazia, quando estava chateada com o meu marido. Fiz um resumo das contas. Seis mil euros [de gastos] que na minha vida de casada são causados pelo meu marido. Ele pediu-me desculpa, a chorar, para que não fosse embora. Deu-me 160 euros para pagar a luz. Fui empenhar o meu ouro para pagar o gás e a água”. É quase irreconhecível quando, no final de “Muitos Dias Tem o Mês” a vemos de camisola decotada, o corpo liberto. “Gosto muito de dançar. Todos os fins de semana vou ao baile. Fico solta. Preciso mesmo daquele bocadinho, de divertir-me. Se não sair, se não for ao baile, não ando bem comigo mesma. Preciso de tirar forças de cá de dentro para continuar a semana na minha luta”. É fácil passar para o lado de lá. Ou seja, perder o controlo sobre a situação e entrar em colapso financeiro. Conseguir manter o quotidiano é a luta diária desta pessoas. Margarida Leitão assistiu a meses de dificuldades. “Vêem-se obrigadas a manter um jogo de aparências. Ganham importância os pequenos gestos banais – que eram inquestionáveis e que agora já não estão seguros. No filme existe uma ida de uma mulher ao cabeleireiro. Poderá parecer algo supérfluo, mas o facto de durante seis meses não ter podido pintar o cabelo afectou-a psicologicamente. “Custou-me um bocado. Afastarmo-nos desses nossos hábitos…, não só porque gostamos de nos ver a nós próprios, como gostamos de frequentar o espaço.”. A imagem que ela tinha de si própria ficou comprometida, além de ter ficado excluída socialmente de um ritual do qual fazia parte”. A reacção ao problema do sobreendividamento não é unívoca. Mas, num momento ou noutro, a negação é uma constante. “A princípio, as faltas de pagamento são vistas como algo facilmente remediável. Quando se vêem com dívidas que não conseguem pagar, contraem outros créditos, adiando assim o problema e negando-o mais uma vez. A espiral de dívidas começa a sufocá-los, mas procuram manter as aparências. Fazem viagens com amigos, põem os filhos em colégios, compram carros novos sem terem dinheiro para os pagar. Mas há um momento em que não podem esconder mais e aí são confrontados com uma realidade dura e implacável. Contudo, quando vemos o homem que está prestes a declarar insolvência dizer que comprou uns óculos de 700 euros, questionamos até que ponto a situação de crise é por ele aceite…”. Este homem é Jorge. E vemo-lo ao longo do filme, sobretudo em contacto com uma assistente. Deixou de pagar créditos, perdeu a mãe, viu-se aflito para fazer face a todas as despesas. “Escrevi umas cartinhas, quero pagar, sim senhora, mas têm de aguardar, tem de ser de acordo com as minhas possibilidades. Pago nem que seja 25 euros por mês”. A assistente sentencia, peremptória: “Os encargos são de 300 e tal euros e tem 500 de ordenado. Não sobra quase nada. Neste momento, a dívida ascende aos 17 750 euros, por baixo”. Sugere-lhe que peça insolvência por incapacidade de liquidação. E acompanha-o à porta com um conselho: “Sabe o que é que a minha avó me dizia? Que só devemos estender os pés de acordo com o tamanho dos lençóis”. É preciso aprender a estender os pés de acordo com o tamanho dos lençóis. O filme regista, também, um momento em que crianças aprendem que aforrar é um valor. Respondem a questões simples como: “O que deves fazer se tiveres dinheiro?” Gastar em brinquedos e poupar são possibilidades de respostas. A “correcta”, claro está, é a última. É, pelo menos, a aconselhável. Eles vivem intimamente os problemas dos pais, e têm as suas vidas implicadas na tempestade que se sente em casa. Uma mulher começa por explicar, justamente, que não lhe foi ensinado a gerir o dinheiro. É uma mulher que limpa o pó, freneticamente, e que por fim vemos a olhar uma montra de um centro comercial. Ninguém diria que é uma compradora compulsiva, que não soube resistir à magia do cartão de crédito. “Eu não sabia controlar o dinheiro. A minha maior frustração era viver com os meus pais aos 35 anos. Não tinha a minha independência. Discutia com os meus pais e ia para centros comerciais. Comprava coisas de pele, roupas de marca. Quando comprava aquela peça, sentia-me outra pessoa, feliz. Já que não tinha a minha casa, já que não podia controlar o meu dinheiro… Era um vício e uma alegria ao mesmo tempo”. Muitas destas pessoas estão sozinhas. No filme, ouve-se: “Para a gente se desenrascar, começámos a recorrer aos cartões de crédito. Não tínhamos auxílio nenhum”. Outras só sobrevivem com o apoio da família. “Continuam a ser as redes de solidariedade familiar e pessoal a valer a muitos, num momento complicado. A mulher que se separou, foi em casa da filha que arranjou refúgio. O casal que leva comida à filha, na escola, teve a ajuda dos pais, que muitas vezes puseram comida na sua mesa. No entanto, em muito dos casos, a vergonha faz com que a pessoa esconda principalmente da sua família a gravidade da sua situação. Noutros casos, quando a situação é muito desesperante e procuram ajudam, esta é-lhes negada por aqueles a quem chamavam família”, diz Margarida Leitão. Os depoimentos do filme são de uma crueza impressionante. “Umas vezes paga-se a luz, noutro mês paga-se o telefone. Ainda temos 19 meses para acabar de vez com o mal e nunca mais me meto em créditos”. “É impensável juntar dinheiro… Há sempre coisas a surgir, as dívidas, as despesas do dia-a-dia”. “Comprar é a pronto. Créditos, não vale a pena. Ninguém nos daria. E seria pôr mais problemas sobre problemas. Era um poço sem fundo”. “Muitos Dias Tem o Mês” chega às salas numa altura em que a crise é um dado adquirido, uma realidade tentacular que limita a vida de milhares de pessoas. Mas a ideia do filme é antiga. “Comecei a debruçar-me sobre o tema em 2005. A crise ainda era um cenário remoto. Bancos e instituições colocavam à disposição vários produtos de crédito, tornando acessível a qualquer um sonhos dantes impensáveis. Mas já se liam pequenas notícias nos jornais alertando para o progressivo endividamento dos portugueses, e o tema surgia nas conversas banais que ia tendo. Veio-me parar às mãos um estudo desenvolvido pelo Observatório do Endividamento dos Consumidores do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia de Coimbra que me inquietou mais em relação a esta realidade”. Entre pesquisa e filmagens, o filme demorou cerca de oito meses a ser construído. A equipa multiplicou contactos, afinou o tom, encontrou aqueles que aceitaram expor o seu drama. “Acho que algumas pessoas tinham vergonha da sua situação e de como perderam o controlo sobre o seu dinheiro. Algumas sentiam principalmente medo. Um medo enorme de serem julgados pelos outros, e condenadas. A crise não era notória e falar sobre dinheiro era tema tabu. Parecia ser mais fácil pôr as pessoas a falar sobre a sua vida íntima do que sobre a forma como geriam o seu dinheiro. Ironicamente ou não, o filme e o facto de serem filmados ajudou alguns a sair do isolamento. Finalmente tinham alguém a quem podiam contar a sua história sem medo de serem julgados. A câmara acompanhava-os na sua luta diária, ouvindo-os sem ter pena ou os condenar. Em “Muitos Dias Tem o Mês” queria em confronto dois padrões antagónicos: a expectativa e realidade, necessidade e desejo, prazer e disciplina. O filme procura reflectir sobre a nossa postura enquanto trabalhador-devedor e consumidor-gastador”. Um binómio presente no aforismo de Oscar Wilde, que cita: “Há duas tragédias na vida: uma, a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra, a de os satisfazermos”.

domingo, 11 de outubro de 2009

Mulheres de armas

Começaram devagarinho na Força Aérea nos anos 60. Hoje, representam 20% do efectivo militar. Afinal, a tropa não é só para homens.


Alguém disse um dia a Winston Churchill – primeiro-ministro britânico durante a II Guerra Mundial – que no ano 2000 as mulheres mandariam no Mundo. Com o seu habitual humor sarcástico, Churchill terá dito: «Ainda ...?»
Tenha falado a sério ou a brincar, o certo é que a resposta do carismático político inglês reflectia já uma tendência das sociedades ocidentais e da europeia em particular: o crescente papel da mulher em postos de decisão e a sua emancipação face ao homem. E aquele que parecia ser o último reduto dos homens, o serviço militar, também acabou conquistado por elas. E não deixam os créditos por mãos alheias, conseguindo chegar rapidamente às patentes de oficiais. Ou não fossem elas mais determinadas do que eles.
Regina Ramos, de 43 anos, é uma dessas mulheres. Nascida em Moçambique e residente na Figueira da Foz desde os 9 anos, foi sempre uma aluna aplicada, e foi sem surpresa que os pais a viram ingressar em Medicina na Universidade de Coimbra.

Após seis anos de curso e dois de internato geral, ingressou na Força Aérea para fazer a recruta como qualquer militar, deixando de lado uma carreira civil: «A principal razão que me levou a escolher a vida militar tem a ver com a especialidade que eu sempre quis tirar. Eu desde o 4.º ano da faculdade que sabia que queria ser cirurgiã geral, e ao mesmo tempo sabia que na vida civil havia uma certa dificuldade em ingressar nos quadros. Quando acabei o curso e o internato geral, a Força Aérea fez uma comunicação a todos os policlínicos que estavam a acabar o estágio a propor o alistamento. Eu vim aqui ao Lumiar e informei-me de todas as condições e das possibilidades de ingressar nos quadros, porque procurava alguma segurança, e alistei-me», conta às Selecções do Reader’s Digest.
Dessa forma, evitou uma eventual colocação num hospital longe de casa. Hoje, passados 15 anos, não se arrepende da escolha, até porque a vida militar tem a ver com a sua própria personalidade: «Gosto de ser militar porque tenho uma personalidade compatível com o rigor militar, com a disciplina, porque eu própria sou uma pessoa disciplinada e organizada, mas sê-lo-ia mesmo que não fosse militar», garante.
A desempenhar funções na Direcção de Saúde no Hospital da Força Aérea, no Lumiar, acaba por ter mais liberdade que os militares destacados nas unidades operacionais, mas sempre que pode experimenta essa vida mais espartana quando parte em missão para o estrangeiro: «A minha participação em missões no estrangeiro tem a ver com uma ideia básica: o serviço de saúde da Força Aérea existe para prestar assistência, preservar a vida e tratar as doenças dos militares, mantendo-os saudáveis e preparados para qualquer missão. Ou seja, antes, durante e depois de qualquer missão. Dessa forma, aceito acompanhá-los nessas missões», diz Regina Ramos.
Esta médica, com a patente de tenente-coronel, tem-se voluntariado para esse tipo de missões, desde o terramoto no Paquistão, que acabou por não ir devido ao cancelamento da missão, a São Tomé e Príncipe. Esteve também em Bodo, na Noruega, numa missão dos F-16, na Lituânia, nos Balcãs e, mais recentemente, no Afeganistão, em Cabul: «Tenho sido sempre voluntária, até porque actualmente tenho um posto em que já não sou obrigada a ir para missões operacionais. Habitualmente, vão os mais novos, os tenentes, os capitães, até porque a missão que nós destacamos de apoio sanitário é para apoiar as esquadras de voo ao nível de prestação de cuidados, que tem a ver com os cuidados primários de saúde e a urgência pré-hospitalar, e teoricamente são os tenentes e os capitães que prestam esse serviço. Eu já estou numa fase mais avançada da minha carreira», explica às Selecções.
A Força aérea foi a primeira
Casada, mas sem filhos por opção própria, Regina Ramos diz que não é difícil conjugar a vida da farda com a vida familiar: «O meu marido foi pára-quedista no serviço militar obrigatório, e já estávamos casados quando eu vim para a Força Aérea, e ele até acha piada ao facto de eu ser militar.»
Actualmente, Regina Ramos prepara ao pormenor mais uma missão em Cabul, no KAIA – Kabul International Airport. Foi incumbida de organizar e preparar um grupo de militares dos três ramos das forças armadas que irão estar destacados um ano no Afeganistão: «Eu sou chefe da 2.ª Repartição da Direcção de Saúde da Força Aérea, sendo responsável pela medicina operacional. A missão primária é manter a área da saúde operacional na FA sempre a funcionar nas bases, e tenho também a responsabilidade de preparar as missões de apoio sanitário no exterior. Nesse sentido, vai decorrer a partir de Julho uma missão conjunta dos três ramos em Cabul, missão liderada pela França e em que uma equipa de saúde operacional irá integrar o pessoal hospitalar, num total de 15 pessoas, durante um ano, fazendo rotações de quatro meses. Sou a chefe do grupo de trabalho responsável pela preparação e vou organizar a equipa portuguesa», explica.
Quinze anos depois de ter entrado para a Força Aérea, Regina Ramos é dos rostos mais conhecidos, e não é pelo facto de ser mulher. Segundo ela, nunca sentiu qualquer discriminação nas fileiras, até porque este foi o ramo das forças armadas que primeiro se abriu às mulheres e onde «elas» dão cartas. Para Regina Ramos, isso deve-se à própria natureza das mulheres: «Penso que tem a ver com a psicologia das mulheres na adolescência. Os homens amadurecem mais tarde, e as raparigas são melhores alunas.
Elas são mais determinadas, mais pacientes. Quando chegam ao 12.º ano, estão mais bem preparadas para uma faculdade ou outro percurso que escolham.»
Discriminação foi coisa que Regina Ramos nunca sentiu e nunca viu. Embora no início, quando as FA se abriram às mulheres, tenha havido alguns problemas. Mas isso foi há muitos anos. A Força Aérea recebeu as primeiras militares do sexo feminino, as enfermeiras pára-quedistas, em 1961 e foi também o primeiro ramo das forças armadas a abrir as portas da Academia da Força Aérea a candidatas em 1988.
Em 1998, as mulheres representavam cerca de 9,5% do total de efectivos militares. Eram cerca de 712 mulheres. Actualmente, a Força Aérea é servida por 1245 militares do sexo feminino, o que representa cerca de 17% do efectivo militar deste ramo das forças armadas. As áreas em que estão mais presentes são a área de apoio, com cerca de 79% do efectivo militar feminino, seguida pela área operacional, com 11% do total, e por último surge a área da manutenção, com cerca de 10% do universo militar feminino da Força Aérea.
Um crescimento que tem sido sentido nos outros ramos, como o Exército, onde representam já 19% do total de efectivos, estando presentes desde a componente de combate à componente administrativa, à excepção das tropas especiais, nomeadamente os Comandos e as Operações Especiais.
A primeira mulher do quadro permanente foi incorporada em Abril de 1989. Dois anos depois, a Academia Militar incorporou as primeiras cadetes femininas. Em 1992, realizou-se a primeira incorporação feminina, no Batalhão de Informações e Reconhecimento das Transmissões, na Trafaria.
E desde aí o número tem vindo a crescer de ano para ano.
Elisabete Silva, de 29 anos, capitã de cavalaria, ingressou na Academia Militar em 1997, sem nunca antes ter pensado em seguir a vida das armas. Mas o destino pregou-lhe a partida: «Sempre pensei em seguir a Faculdade de Desporto, porque foi uma área de que sempre gostei – queria algo que tivesse a ver com a actividade física. Mas no final do ensino secundário tive conhecimento do concurso para a Academia Militar e decidi concorrer. Como na fase de concurso existia uma prova de aptidão militar de quatro semanas, onde deu para ter contacto com a vida militar, apercebi-me de que a actividade física era uma componente importante e fiquei interessada devido exactamente a essa componente», explica.
Quando chegou a casa, em Lousada, disse aos pais que pensava seguir a vida militar. Não a levaram a sério. Mas, determinada, concorreu à Faculdade de Desporto e à Academia Militar: «Como só tinha 17 anos na altura do concurso, o meu pai teve de assinar os papéis de autorização. Foi nessa altura que ele e a minha mãe se convenceram de que era o que eu queria.»
Apoio da família
No Verão de 1997, é chamada a prestar provas na Academia e passa à primeira. Estava traçado o seu destino.

No final do primeiro ano de curso, foi obrigada a escolher qual a arma que pretendia seguir e também não hesitou: escolheu cavalaria. Completado o curso, fez o último, o do tirocínio, na velha Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, entretanto desactivada.
Quando passou a pronta, foi destacada para Santa Margarida, para o Regimento de Cavalaria n.º 4, onde foi comandar um pelotão do Esquadrão de Carros de Combate. E também já teve a sua dose de adrenalina em missão no exterior: «Estive por duas vezes na Bósnia-Herzegovina, em 2004 e 2006, no âmbito das missões SFOR e EUFOR, respectivamente, naquele território.»
Com uma vida que antes era reservada apenas aos homens, Elisabete Silva tenta conjugar agora a vida de militar com a de mulher: está grávida do primeiro filho, o que a obrigou a uma reorganização da sua vida, mas sem abdicar de nada: «A minha vida esteve sempre organizada em função do que faço, mas não altera nada, até porque o meu marido também é militar. O facto de estar a comandar um Esquadrão de Comando e Serviços, que tem menos actividade operacional do que um Esquadrão de Carros de Combate, proporcionou-me maior disponibilidade para a vida pessoal», explica às Selecções do Reader’s Digest.
Sobre eventuais discriminações, Elisabete Silva diz que nunca sentiu qualquer atitude, mas que «somos olhadas de forma diferente, somos sempre olhadas dessa forma».
Gisela Antunes, de 28 anos, tenente da Marinha, diz também não ter sentido qualquer discriminação quando entrou na Escola Naval: «Não notei qualquer atitude menos correcta. Acredito que nos primeiros anos em que entraram mulheres para a Marinha naturalmente que deve ter havido uma maior atenção sobre elas, mas quando eu entrei já não notei nada, embora sentisse que havia muita gente que observava», explica.

O ingresso de Gisela Antunes na Marinha foi quase um acto natural, tendo em conta que o pai também passou pelo mesmo ramo das forças armadas: «O meu pai foi militar na Marinha, e eu já estava familiarizada com a vida militar. Quando fiz o 12.º ano, foi organizada pela Marinha uma visita à Escola Naval, a vários navios e ao Planetário para nos mostrarem o que era a vida militar e ver se alguns dos alunos se interessavam, e eu fiz essa opção.»
Quando chegou a casa, em Coimbra, disse aos pais que pensava seguir a vida militar. Não a levaram a sério. Mas, determinada, concorreu à Universidade de Coimbra e à Escola Naval.
Em 1998, entrou na Escola Naval para o curso de Marinha, tendo embarcado pela primeira vez nesse ano durante o concurso à Escola Naval. «Ao longo do curso de cinco anos, os cadetes embarcam por diversas vezes para colocar em prática aquilo que aprendem na Escola Naval», explica.
Em 2003, como aspirante, cumpriu o embarque durante cerca de seis meses a bordo da fragata Comandante Sacadura Cabral e das corvetas Afonso Cerqueira e João Roby, onde desempenhou funções de chefe de serviço. Entre 2006 e 2008, comandou a lancha Sagitário, tendo sido a primeira mulher comandante de um navio da Marinha de Guerra Portuguesa.
Actualmente, está a desempenhar funções na Escola Naval como comandante de companhia. E no currículo tem já diversas missões em águas internacionais: «Na corveta Afonso Cerqueira, estive destacada na Islândia um mês e meio, onde fizemos fiscalização de pescas juntamente com inspectores do Instituto Geral das Pescas. Estive em Cabo Verde numa missão conjunta com a Polícia Judiciária durante cerca de um mês; também um mês nas proximidades da Guiné-Bissau durante um período eleitoral, numa missão de apoio aos cidadãos portugueses», explica às Selecções do Reader’s Digest.
Mais bem preparadas
E, tal como Regina Ramos, também Gisela Antunes acha que as mulheres, quando chegam à vida militar, vão mais bem preparadas que os homens: «Acho que, na generalidade, a formação de base das mulheres é melhor. Elas vão mais bem preparadas para o ensino superior; julgo que tem a ver com o empenho e a dedicação.»
Na Marinha Portuguesa, a entrada de mulheres começou a fazer-se em 1992. Actualmente, existem 886 militares femininos na fileiras da Armada, o que representa 8,7% do total do efectivo, sendo que a percentagem de cadetes femininos a frequentarem presentemente a Escola Naval é cerca de 15 %.
Em 2000, havia 363 mulheres; em 2005, o número subiu para 610, a maior subida nos últimos 10 anos.
Na distribuição de desempenho de funções, na classe de oficiais elas estão representadas nas áreas de técnicos superiores navais, saúde e classe de Marinha. Na classe de sargentos, ocupam as áreas de saúde e informática, e na de praças desempenham funções nas áreas de manobras, serviços, operações e administrativos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

4 maneiras de beijar

Um beijo tem um significado diferente consoante a situação onde se encontra. Veja quatro formas de beijar que simbolizam aspectos diferentes.


Fabricado no Japão

O beijo mais longo debaixo de água durou 2 minutos e 18 segundos. O recorde foi estabelecido em Tóquio a 2 de Abril de 1980. Qualquer tipo de contacto físico no Japão é olhado com desdém, mas fazê-lo debaixo de água e aparentemente aceite, mesmo aos olhos da moral japonesa.

Dois contra o deserto

Para os beduínos, o deserto é o seu lar, e o camelo é mais do que um bem valioso e um meio de transporte de confiança. Sobreviver juntos no deserto durante dias, semanas e meses é uma experiência unificadora perfeita.

Um homem de paz e liberdade

O 14.º dalai-lama reúne-se com a jovem reencarnação de um dos seus professores espirituais principais, Dilgo Khyentse Rinpoche. O seu gesto simboliza a bondade e compaixão sem fim deste académico distinto e homem de paz que se tornou conhecido de todos nós.

Como os animais o fazem

Pode pensar: que há de mais humano do que beijar alguém para exprimir afecto ou respeito? Pense outra vez! A verdade é que os animais também o fazem - e pelas mesmas razoes. Cães, gatos, pássaros e outros animais esfregam narizes, lambem-se e limpam-se mutuamente como um gesto de afecto - ou um convite para a brincadeira.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Investigadores identificam molécula da eterna juventude

Uma molécula designada espermidina poderá ser a solução para alcançar a ansiada eterna juventude celular, de acordo com um recente estudo elaborado por uma equipa de cientistas austríacos.O estudo, publicado pela revista britânica "Nature", assegura que as experiências científicas levadas a efeito até agora com moscas e vermes mostram que a administração desta molécula praticamente desconhecida para a população é capaz de prolongar significativamente a vida útil de certas células. O envelhecimento dos mamíferos é determinado pelas diversas mudanças bioquímicas que se produzem nas suas células, uma das quais é a redução da espermidina, que se encarrega em etapas precoces da vida de favorecer o crescimento e a maturação celular. No entanto, apesar dessa evidência, a comunidade científica não tinha percebido até agora se a espermidina era a causa ou o efeito desse envelhecimento. O estudo dissipa esta dúvida e explica que esta molécula é capaz de travar o processo natural de deterioração celular, ajudando a eliminar os resíduos perigosos que vão sendo produzidos e instalados com o passar do tempo no coração da célula.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma nova chave para curar a tuberculose

A descoberta de uma enzima que torna o bacilo de Koch resistente ao nosso sistema imunitário e de um método para a neutralizar abre a porta à cura desta doença, que mata cerca de 2 milhões de pessoas por ano. Mas a investigação terá ainda de passar por vários testes que poderão levar uma década até a esperança numa cura se poder tornar uma realidade.Há uma nova esperança para a cura da tuberculose, que infecta mais de 3 mil portugueses por ano e mata 2 milhões de pessoas anualmente. Depois de terem identificado uma enzima que torna o bacilo da doença resistente ao sistema imunitário humano, investigadores da Universidade de Iowa, nos EUA, encontraram um método que pode neutralizar aquela enzima, abrindo caminho à cura para a doença contagiosa.Reuben Peters - que lidera a equipa de investigadores da Iowa State, Universidade de Illinois e da Universidade de Cornell - explica que na maioria dos casos de infecção, o corpo defende-se com certas células, que matam os microorganismos invasores. São justamente estas células que têm a capacidade de destruir micróbios.A promissora descoberta do professor da Iowa State University é que o bacilo da tuberculose produz uma molécula defensiva que impede aquelas células de o destruírem. Reuben Peters e a sua equipa baptizaram a molécula com o nome edaxadiene.A seguir àquele descoberta, o professor tentou encontrar moléculas que se fundissem com a edaxadiene da tuberculose e a neutralizassem. Este processo impede as células da tuberculose de produzir esta molécula resistente ao sistema imunitário. Sem ela, as células da tuberculose teriam uma reduzida capacidade de resistência, sendo destruídas pelas células salvadoras.A boa notícia é que o investigador Reuben Peters pensa já ter encontrado uma molécula com esta capacidade. "Temos inibidores que se juntam a uma das enzimas que forma a edaxadiene num tubo de ensaio", disse o cientista. A notícia menos boa é que encontrar um inibidor que funcione fora do tubo de ensaio, em humanos, seja estável e possa ser ingerida em segurança é um processo que pode demorar uma década.Apesar disso, Peters acredita que no fim do processo, a recompensa pode ser enorme. "O que digo aos meus alunos é que se conseguirmos causar um impacto de apenas um por cento, podemos estar a contribuir para salvar 15 mil a 20 mil vidas por ano", afirmou, acrescentando que tal é "um contributo significativo para aliviar o sofrimento humano".O grupo de investigadores descobriu a molécula quando comparava o tipo de tuberculose que mata os humanos com aquela que afecta o gado, e não tem qualquer efeito nas pessoas. A chave foi descobrir que o micróbio do gado não produz edaxadiene.

domingo, 4 de outubro de 2009

Cientistas desenvolvem vacina contra vício em cocaína

Dois pesquisadores da Baylor College of Medicine, em Houston, nos Estados Unidos, dizem estar a desenvolver uma vacina que eles esperam ser o primeiro medicamento utilizado para tratar viciados em cocaína."Para aquelas pessoas que querem parar de usar [a droga], a vacina poderia ser muito útil", afirma Tom Kosten, um professor de psiquiatria que está sendo ajudado na pesquisa por sua mulher Therese, psiquiatra e neurocientista."Em alguns momentos, a maior dos usuários vai cair em tentação e terá uma recaída. Mas [para quem a vacina funcionar], eles não vão ter seu estado de consciência alterado e vão perder o interesse", afirma o cientista.A vacina, atualmente em testes clínicos, estimula o sistema imunológico a "atacar" as moléculas que compõem a droga, quando elas entram no corpo. A estratégia utilizada é a seguinte: o sistema imunológico não é capaz de reconhecer as moléculas de cocaína e outras drogas porque elas são muito pequenas. Por isso, não fabrica anticorpos para atacar essas moléculas.Para fazer com que o corpo humano reconheça a droga, Kosten colocou, na vacina, cocaína inativa ao redor de proteínas inativas da bactéria que causa a cólera. Quando a vacina é aplicada no corpo, o sistema imunológico produz não só anticorpos contra esse composto --que é inofensivo-, mas também adquire a capacidade de reconhecer a droga quando ela é inalada. Os anticorpos, então, aderem às moléculas da cocaína e impedem que elas cheguem ao cérebro.TestesKosten pediu autorização do FDA (agência norte-americana que regula produtos alimentícios e farmacêuticos nos Estados Unidos) para realizar um teste multi-institucional ainda este ano. Caso seja aprovada, a vacina pode representar um marco no tratamento do vício da cocaína, que atualmente envolve principalmente aconselhamento psiquiátrico. Mas um especialista alerta para uma esperança excessiva com a descoberta."Vacinas contra vícios são um avanço promissor, mas é difícil que todo tratamento nessa área funcione para todo mundo", afirma David Gorelick, cientista do National Institute on Drug Abuse. "Apesar disso, se elas [as vacinas] forem eficazes, vão dar uma opção importante para aqueles que trabalham com vício em drogas".